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Youtubers divulgam ciência para ensinar de forma divertida

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Jovens, conectados e divertidos. Assim são os novos astrônomos e astrônomas que, por diversos canais do YouTube, divulgam ciência e astronomia. Um desses canais, o AstroTubers reúne pesquisadores e profissionais da área astronômica na produção de vídeos na plataforma. O objetivo do canal é tornar acessível ao público, com linguagem fácil de entender, pesquisas e outros estudos acadêmicos sobre física e astronomia, além de esclarecer notícias falsas que circulam na internet.

Entre os estudantes há graduandos e pós-graduandos de física e de astronomia de diversas universidades do Brasil e até fora do país. Um deles é o Pedro Pinheiro Cabral, de Natal (RN), é estudante do bacharelado em Física na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e tem 22 anos. Um dos seus vídeos no canal é Por que o céu é azul e as nuvens brancas?

Para ele, o papel de qualquer divulgadora ou divulgador científico é de enriquecer os conhecimentos científicos daqueles que consomem o conteúdo, de maneira que também os estimulem a consumir cada vez mais material desse tipo. “Mas, não basta apenas que o consumidor de divulgação científica descubra as “curiosidades” da ciência, é preciso também que ele compreenda como a ciência funciona e desenvolva um raciocínio crítico que é valioso na sociedade contemporânea”, afirma.

Na opinião do estudante, o Brasil tem entraves para que as pessoas aprendam mais sobre ciência. “A situação é que, nas salas de aula, os professores precisam preparar os alunos para o ENEM; não podemos contar também apenas com livros de divulgação científica, tendo em vista que apenas uma minoria da nossa população lê livros com frequência; na televisão aberta brasileira então o espaço para divulgação científica é mínimo e não parece aumentar. Resta então como objetivo para a divulgação científica pelo YouTube suprir todo ou boa parte deste vácuo que existe pelo menos para a parte da população já incluída digitalmente, já que no YouTube se consegue publicar conteúdos que engajem as pessoas, produzidos a baixos custos e de fácil acesso para todos os que tem internet”. 

Em seus vídeos, Pedro usa recursos visuais para facilitar o entendimento sempre que possível e não usa jargões “para não assustar ninguém”, diz. “Busco usar analogias que conectem o que eu explico a algo mais do senso comum, e assim vou tentando quebrar em pedacinhos algum conhecimento científico, de maneira que o meu público-alvo consiga compreender. Em outros vídeos tento usar o humor, enfim, estratégias para cativar o espectador e fazê-lo se interessar mais por ciência e entendê-la melhor em toda a sua beleza”.

Pedro conta que no AstroTubers tem uma etapa que é muito importante. “Como somos dezenas de membros acadêmicos de Física e Astronomia espalhados pelo país, temos internamente uma comissão de revisão formada por alguns dos nossos membros que sempre leem os roteiros, corrigindo eventuais erros e sugerindo melhorias antes que o vídeo seja gravado e torne a correção ou melhoria mais difícil”.

Colega de canal de Pedro, Karolina Garcia é mestra em Astronomia e doutoranda na Universidade da Florida (EUA), onde também trabalha. Ela é mineira, mas morou a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde fez Engenharia na PUC-Rio e mestrado em Astronomia na universidade federal do estado. Um de seus vídeos no canal é Por que as estrelas brilham? 

Na opinião dela, os canais que fazem divulgação científica no YouTube têm o papel de aproximar a ciência do público em geral de uma forma que as pessoas tenham gosto por aprender.

“O AstroTubers, no entanto, vai além, porque seu papel não é só o de informar sobre ciência, mas também de trazer as pessoas para perto do que é o nosso trabalho diário como astrônomos/físicos. Além de divulgadores, nós somos cientistas, e isso nos permite mostrar ao público não só o resultado de um experimento ou estudo, mas como ele foi feito, como o método científico foi aplicado, que tipos de questionamentos podemos fazer acerca dele etc. Usamos o AstroTubers para mostrar que existe muita pesquisa no Brasil”.  

Para ela, o que ajuda no interesse é que o tópico principal é Astronomia. “É difícil encontrar alguém que não se encante com o céu, ou que tenha curiosidade sobre os mistérios do universo. O desafio está em unir essa paixão que o nosso público tem pela Astronomia com a ciência que há por trás de cada assunto/descoberta, de uma forma que seja leve e descontraída”.

Astrônoma Karolina Garcia e estudante de física Pedro Pinheiro produzem vídeos divertidos para divulgar ciência   Astrônoma Karolina Garcia e estudante de física Pedro Pinheiro produzem vídeos divertidos para divulgar ciência

Astrônoma Karolina Garcia e estudante de física Pedro Pinheiro produzem vídeos divertidos para divulgar ciência – Divulgação

 

Mas, apresentar assuntos complexos em vídeos de poucos minutos é um desafio, aponta a pesquisadora. “É um desafio diário encontrar um equilíbrio entre o tempo de vídeo, a densidade de conteúdo e a maneira de apresentá-lo. Eu diria que o segredo está em dividir certos assuntos em partes menores, para que o conteúdo em um vídeo só não fique tão denso e que possamos focar em passar esse conteúdo de forma didática e prazerosa. Dessa forma, conseguimos apresentar todos os tópicos que achamos importante, e o público tem a oportunidade de rever outros vídeos da série quando quiser!”, detalha.

Responsabilidade na divulgação científica

O estudante de física Pedro defende que um formador de opinião na área científica precisa sempre ter muita responsabilidade com o que diz. “Qualquer falha acidental pode acabar sendo amplificada por pessoas às vezes mal-intencionadas e se tornar mais uma fake news. Às vezes nem é uma falha, mas sim uma fala tirada do contexto.. Então essa responsabilidade ao meu ver precisa ser redobrada. É muito confuso para o público leigo ver duas pessoas com uma mesma especialidade divulgando informações contraditórias, como por exemplo vimos infectologistas divulgando informações a favor e contra supostos tratamentos precoces da covid-19”. 

Com isso, Pedro completa, “mesmo que para cada 100 infectologistas com uma argumentação exista apenas um com argumentação oposta, as pessoas acabam apenas escolhendo confiar naquele profissional que valida a sua opinião ou visão prévia e ignorando os demais. Mas, na ciência nós não podemos ser guiados por opiniões, precisamos ser guiados por evidências, por dados obtidos de maneira honesta e estatisticamente significantes, para que não tenha um risco significante de ter sido um mero produto do acaso. Então a importância do trabalho neste sentido é buscar desenvolver este raciocínio crítico da maneira de pensar que é a ciência nas pessoas”, frisou. 

Karolina completa que tem se tornado cada vez mais difícil filtrar o que é conteúdo de qualidade e o que não é. “Por isso a necessidade de canais que não só divulgam informações científicas, mas que explicam o que há por trás de cada conclusão. Mais importante do que informar, é desenvolver o pensamento crítico nas pessoas, para que elas consigam filtrar por si só os conteúdos que consomem. É isso que tentamos fazer no AstroTubers: mostrar que não há uma verdade absoluta na ciência (que está em constante evolução), mas que toda conclusão científica se baseia em hipóteses e deve possuir evidências que foram testadas. Nós combatemos as fake news ensinando diariamente o que é ciência e como nós fazemos ciência .“

Além da astronomia

Mas, nem só os cientistas e astrônomos divulgam a ciência. Formada em administração, Mariana Fulfaro e o marido Iberê Thenório, jornalista e apresentador, contam que o canal do Manual do Mundo surgiu da ideia de ensinar as pessoas a fazerem as coisas em casa. 

“Quando a gente veio de Piedade [cidade no interior do estado de São Paulo) para São Paulo e vimos que as pessoas acionavam o seguro para trocar pneus do carro e fazer pequenos consertos em casa. Em Piedade, todo mundo sabia fazer isso e ficamos impressionados com essa coisa de chamar alguém pra fazer. Além disso, nós juntamos uma série de habilidades que a gente já tinha: jornalismo, programação e criação de conteúdo para internet. Quando o YouTube começou a bombar, lá por 2008, a gente viu que muitas pessoas estavam ensinando coisas bacanas para fazer em casa. Resolvemos criar o nosso canal para ensinar também. Os 50 primeiros vídeos  foram feitos com câmeras emprestadas e gravados no nosso apartamento de 35m², relembra Mariana, que é a diretora executiva do canal e também apresentadora. 

Atualmente, a Manual do Mundo Produções é uma das maiores produtoras de entretenimento educativo do país e tem mais de 18 milhões de seguidores em suas redes digitais, tendo acumulado mais de 2 bilhões de visualizações só em seu canal no YouTube.

Para produzir o conteúdo interessante sem abrir mão da consistência, o casal diz que trabalha diariamente em pesquisa e produção. “Temos uma equipe com consultores científicos, produtores, jornalistas. Isso nos ajuda a monitorar o que está acontecendo e o que está chamando a atenção das pessoas na internet e fora dela”. 

O canal ainda tem uma comunidade engajada que manda sugestões e  ajuda até a conseguir materiais para os vídeos. “Um exemplo disso é o vídeo em que abrimos um cofre, que ainda irá ao ar no canal. O Iberê estava atrás de um cofre antigo há tempos e, depois de um post no Twitter, um seguidor doou um que estava trancado há 35 anos sem nem saber o que tinha dentro”, conta Mariana. 

Na opinião dela, o canal é importante em uma época com grande circulação de informações falsas. “A ciência é a principal arma que temos para combater as informações falsas. Se as pessoas sentirem que ciência é algo divertido e útil, conseguimos dar um suporte e ajudar, especialmente em uma época de pandemia. Um exemplo, é o vídeo em que explicamos os perigos de tentar fazer álcool gel em casa, na época em que receitas com gelatina estavam circulando nas redes sociais”.

Apresentar assuntos complexos em vídeos curtos é um dos desafios do canal, por isso Mariana diz que sempre tenta atrelar o conhecimento com a realidade. “Consideramos que a nossa maior especialidade é conseguir mostrar o conceito na prática e isso ajuda a deixar os assuntos menos complexos. Fizemos isso, por exemplo, no vídeo sobre como funciona um formigueiro, em que pegamos uma Içá e tentamos realmente criar um formigueiro. Foram mais de 70 dias para produzir este material e, mesmo que não tenha dado certo, nós mostramos a formiga rainha”. 

Mariana acredita que os canais do YouTube conseguem disseminar e ampliar o acesso às informações científicas, mas é necessários descontração. “Por exemplo, o vídeo em que ensinamos como destilar água do mar usando uma fogueira começa com o Iberê [apresentador do canal] todo sujo, dando a entender que estava perdido em uma ilha deserta. Além de ensinar de um jeito divertido como fazer o processo de destilação, também falamos porque não se deve beber água do mar e explicamos, com uma linguagem simples, o conceito de osmose. Se tivéssemos começado de cara com o conceito, provavelmente, não chamaria a atenção do público”, finaliza.


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Astrônoma inglesa inspira programa que leva ciência a escolas públicas

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''O Sol não tem a mesma composição da Terra. É formado, essencialmente, por hidrogênio'', ecoou a voz de uma jovem mulher, em 1925.

A voz era de Cecilia Payne, astrofísica nascida na Inglaterra em 1900 que, mesmo sem títulos oficiais, teve a coragem de desafiar as teorias que existiam, até então, sobre a formação da principal estrela do nosso sistema solar.

O fenômeno chamado de halo solar pôde ser visto pelos moradores da capital federal por volta das 11h. O efeito é provocado pela refração dos raios solares sobre os cristais de gelo que formaram as nuvens no céu de Brasília O fenômeno chamado de halo solar pôde ser visto pelos moradores da capital federal por volta das 11h. O efeito é provocado pela refração dos raios solares sobre os cristais de gelo que formaram as nuvens no céu de Brasília

Cecilia Payne descobriu a composição do sol, mas sua tese demorou a ser aceita Marcello Casal JrAgência Brasil

A tese de doutorado apresentada, há quase um século, na atual Universidade de Harvard, dizia que ao contrário do que se pensava, o Sol não tinha composição majoritariamente de ferro.

A voz de Cecilia foi rechaçada e refutada. Somente anos mais tarde teve o seu feito validado após reconhecimento pelo astrônomo Henry Norris Russel. Hoje a descoberta de Cecilia é tida como um marco na astronomia e, em especial, no estudo das estrelas.

Cecilia Payne saiu da Inglaterra para os Estados Unidos em busca de oportunidades em ambientes considerados masculinos: a Academia e a Ciência. E, mesmo na América, onde resolveu desenvolver sua carreira, enfrentou discriminação para o reconhecimento de títulos como o de astrônoma, para equiparação salarial e ocupação de um cargo oficial como professora.

Contra todas as adversidades, Cecilia foi a primeira mulher da história a ocupar a direção do departamento de astronomia na Universidade de Harvard, antes de se aposentar.

Programa Cecilia

Passados mais de 40 anos de sua morte, Cecilia Payne reverbera aqui no Brasil: a Universidade de São Paulo (USP) criou um programa batizado com o nome da cientista. O Cecilia leva ciência e, em especial, a astronomia, geofísica e ciências atmosféricas para dentro das escolas públicas, pelas mãos da astrônoma Elysandra Cypriano.

“O projeto faz referência a astrofísica que descobriu que o Sol era composto basicamente por hidrogênio. Naquela ocasião em quem ela descobriu isso, acreditava-se que o Sol tinha a mesma composição da Terra e foi bastante polêmico. Na época ninguém acreditou nela e ninguém fez jus de fato à grandiosidade da Cecilia. Então, a gente fez uma homenagem a ela”, conta Elysandra.

Além da referência à inglesa, a astrônoma da USP destaca que este também é um projeto que remonta à sua própria história, com dificuldades e desafios, e permitindo que estudantes possam trilhar um caminho mais leve.

“Eu fui uma criança de escola pública que teve pouco acesso. Eu só fui conhecer a astronomia de fato quando eu já era bem mais velha, já na faculdade. Eu fico imaginando como seria se eu tivesse tido acesso a várias coisas que eu proponho nos meus projetos. Como seria eu criança? A minha trajetória seria diferente. Então, quando eu penso na minha trajetória de vida, eu tenho muito orgulho de onde eu cheguei. Porém, se olhar para trás, se eu tivesse tido acesso ao que não tive, talvez teria sido diferente. No mínimo, mais leve e talvez chegasse até um pouco mais longe. Porém, agora na posição de professora, eu consigo olhar pra trás e ver como eu posso auxiliar essas crianças que nunca tiveram acesso a este tipo de material para que o caminho delas seja um pouco mais leve”, destaca.

Ouça na Radioagência Nacional

Mulheres na astronomia

Tornar esta caminhada mais leve é também um dos desafios para as mulheres. ''O desafio das mulheres é o enfrentado em todos os contextos da sociedade. A meu ver, o problema da mulher na ciência é o problema geral da mulher em todos os aspectos. É uma luta diária. Ao longo da história da mulher você pode encontrar vários momentos de resistência. Você vai no passado eram coisas tenebrosas e já evoluímos bastante, graças ao trabalho de mulheres que vieram antes de nós. Cabe a nós pensar o que fazer para deixar o caminho das próximas mais leve. Isso vale em todas as áreas. Na ciência, o diferencial é que somos poucas e estamos inseridas em um ambiente mais masculino”, ressalta a astrônoma.

Para esta sensação de não pertencimento, aflorada ainda mais na universidade, Elysandra ressalta a importância dos coletivos, como o Astrominas outro programa ligado à USP que envolve mulheres em diferentes momentos da carreira: “Você buscar pessoas que estão na mesma situação. Se aproximar de outras mulheres. Tentar tornar aquele lugar um pouco mais compressivo para você. Se perceber como parte daquilo. É aquela história do juntas somos mais fortes. Então, a grande dificuldade é eu estar sozinha e lidar com essas questões introjetadas na nossa existência”.

Sobre as personalidades que a inspiraram, a astrônoma conta que que foram várias ao longo da vida, mas que sua mãe e avó e este ambiente feminino em que cresceu no qual “a mulher era muito poderosa” são referências. Também cita a renomada astrofísica brasileira Beatriz Barbuy, por quem, dentre as diversas professoras que passaram por sua trajetória, tem um apreço em especial. Mas ressalta que cada mulher é única e que seu modelo deve ser você mesma.

“Cada um tem sua trajetória. É legal admirar mulheres, por que mulheres são admiráveis, mas não necessariamente seguir um modelo. O seu modelo tem que ser você mesma, baseado na sua história, naquilo que te faz feliz, naquilo que faz o seu coração bater mais forte”, conclui Elysandra


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Mulheres ainda são minoria em cargos de liderança e na ciência

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Apesar da luta histórica das mulheres por igualdade, a presença feminina em postos de liderança e em áreas de destaque, como a ciência e a política, ainda é menor que a masculina.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), atualmente, elas são cerca de 54% dos estudantes de doutorado do Brasil. Mas tanto aqui como no resto do mundo, essa participação varia de acordo com a área do conhecimento. Nas ciências da saúde, por exemplo, as mulheres são maioria (mais de 60%), mas nas ciências da computação, engenharia, tecnologia e matemática elas representam menos de 25%, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Globalmente, ainda de acordo com a ONU, menos de 30% dos pesquisadores e cientistas são mulheres.

Para a dermatologista Valéria Petri, primeira médica a detectar o HIV no Brasil, em 1982, as mulheres são sinônimo de coragem e força. Elas não costumam desistir, não recusam desafios e estão sempre dispostas a mostrar seu valor.

Profa. Valeria Petri Profa. Valeria Petri

Para a dermatologista Valéria Petri, primeira médica a detectar o HIV no Brasil, em 1982, as mulheres são sinônimo de coragem e força- Divulgação/UNIFESP

“Tem o 8 de março que faz as pessoas dizerem assim: ah eu adoro as mulheres. É? Não diga. Tem o 8 de março que aparecem as mulheres que tem a coragem que eu nunca tive. Vou te dizer que coragem elas têm. Elas acordam às 4h da manhã, pegam um transporte, dois transportes, ou três e chegam no trabalho. Seja o que for que ela for fazer, ela está gostando do que ela faz, ela capricha. Ela se diverte, ela se sente bem e ela mostra o que ela é mesmo. Uma pessoa que contribui com a humanidade. É isso que é a mulher”, afirma a médica.

Valéria relembra que, no surgimento dos primeiros casos de HIV no Brasil, a síndrome foi tratada, a princípio, com preconceito, principalmente entre alguns médicos homens. “Eu não recuso, nem as mulheres recusaram. As mulheres não recusaram. Agora, os homens da época ficaram até bravos comigo quando eu mandava pacientes para serem examinados em outras áreas. Alguns diziam: você não me manda estes pacientes porque eu não quero. Por que? Porque para os homens é mais difícil lidar com a transgressão”, afirma.

Mesmo atuando em ambulatórios, Valéria conta que sempre se interessou pela pesquisa científica e pela publicação de seus estudos em livros e revistas da área de saúde.

“Pesquisa é o que a gente faz o tempo todo. Quando você examina um paciente, você precisa saber tudo a respeito daquele caso, você vai procurar. Enquanto eu não resolvesse, eu não sossegava. Depois você se entusiasma para publicar os casos porque é parte do dever acadêmico. Você participa das reuniões científicas, você se relaciona com as pessoas no nível nacional e internacional. Eu fui fazendo isso como um processo natural mesmo, e eu precisava vencer. Porque eu não ia desistir no caminho”, conta.

Depois da descoberta na década de 80, a médica ganhou prestígio internacional, publicou vários livros e chegou a ocupar o cargo de vice-reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), instituição da qual ela é professora titular desde 1996.

Mulheres no esporte

A presença de mulheres em rotinas pesadas de treinos e competições é um fenômeno recente. Ao longo da história, o mito da fragilidade feminina ficou para trás e elas passaram a conquistar destaques, medalhas e pódios, tanto no nível do esporte amador quanto profissional.

É o caso da ex-ginasta Laís Sousa, que ficou internacionalmente conhecida com suas acrobacias e saltos ao fazer parte da equipe de ginástica artística brasileira.

Rio de Janeiro - A ex-ginasta Laís Souza durante a divulgação do uniforme e de seu nome como participante do revezamento da tocha olímpica, no Comitê Rio 2016, na Cidade Nova  (Tomaz Silva/Agência Brasil) Rio de Janeiro - A ex-ginasta Laís Souza durante a divulgação do uniforme e de seu nome como participante do revezamento da tocha olímpica, no Comitê Rio 2016, na Cidade Nova  (Tomaz Silva/Agência Brasil)

A ex-ginasta Laís Souza ministra palestras e fala de suas experiências no esporte e fora dele – Tomaz Silva/Arquivo Agência Brasil

O esporte chegou para a paulista de Ribeirão Preto de forma inesperada, quando ela tinha 4 anos. “Eu fui fazer uma visita onde o meu irmão fazia judô e, bem do lado, tinha um ginásio de ginástica e eu acabei me apaixonando e as meninas lá pulando, fazendo mortais, fazendo coreografia e eu me empolguei. Achei legal, me passou uma sensação de liberdade. Foi assim que a ginástica surgiu na minha vida.”

Aos 15 anos ela representava o Brasil em sua primeira Olimpíada, em Atenas, na Grécia. Depois disso veio outra participação, em Pequim, na China, em 2008. Em 2014, Laís sofreu um acidente quando se preparava para as Olimpíadas de Inverno de Sochi, na Rússia, onde competiria no esqui. A ex-ginasta ficou tetraplégica.

A nova condição mudou totalmente a vida de Laís. “A sensação que eu tenho é que eu vivia dentro de uma casquinha de ovo, feita para fazer aquele tipo de repetição dentro do ginásio, de correr atrás de um corpo perfeito, de séries, coreografias perfeitas e, de repente, eu me vejo sem os movimentos, voltando para um bairro totalmente pobre na cidade onde eu nasci”, conta.

Hoje, ela ministra palestras e fala de suas experiências – tanto no esporte como fora dele – a um público diversificado. Para Laís, ser mulher é lidar com desafios diários e vencer obstáculos sem se calar.

“A gente está conquistando [espaço] pouco a pouco. Tem bastante pra comemorar, mas ainda têm mulheres que, com essa pandemia, estão apanhando em casa. Cada minuto que passa tem uma mulher que está sofrendo algum tipo de maus tratos. Então, acho que a gente não pode relaxar em nenhum momento”, afirma.


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Ao abrir ano judiciário, Fux comemora vacina e exalta ciência

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O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, abriu hoje (1º) o ano judiciário comemorando a chegada da vacina contra covid-19 e exaltando o papel da ciência no combate ao novo coronavírus.

“Não tenho dúvidas de que a ciência, que agora conta com a tão almejada vacina, vencerá o vírus; a prudência vencerá a perturbação; e a racionalidade vencerá o obscurantismo”, afirmou o ministro.

Fux disse ainda que não se deve dar ouvidos a “vozes isoladas” que, mesmo de dentro do Poder Judiciário, “abusam da liberdade de expressão para propagar ódio, desprezo às vítimas e negacionismo científico”.

Em seu discurso, Fux confirmou que, mesmo depois da pandemia, parte significativa dos servidores do Supremo deve seguir em teletrabalho. Ele voltou a exaltar o processo de digitalização da Corte, que neste ano deve se chegar a 100%.

Sobre esse assunto, o ministro lembrou os ataques cibernéticos sofridos por tribunais superiores em 2020 e disse que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) atua para garantir a segurança dos sistemas.

Cerimônia

Assim como em toda abertura do Ano Judiciário, o presidente do Supremo discursou em uma solenidade a partir do plenário da Corte. Neste ano, a cerimônia foi híbrida, com autoridades participando também por videoconferência, em razão da pandemia de covid-19.

Além de Fux, estavam presentes no plenário apenas os ministros Nunes Marques, Luís Roberto Barroso e Rosa Weber. Entre os convidados de honra, estavam presentes o presidente da República, Jair Bolsonaro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. O ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, e o advogado-geral da União, José Levi, também compareceram. 

O procurador-geral da República, Augusto Aras, havia confirmado presença, mas acabou participando por videoconferência.

Conforme prevê o protocolo, além de Fux, apenas os representantes da OAB e da PGR discursaram na cerimônia. Em sua fala, Santa Cruz também exaltou os cientistas pela chegada da vacina. “O país começa a respeitar ares de esperança com a chegada das vacinas, registro aqui minha homenagem aos cientistas”, disse ele, acrescentando que a ciência muitas vezes trabalha sem condições financeiras e políticas adequadas.  

Da mesma maneira, Aras prestou homenagem a cientistas e profissionais de saúde. Ele afirmou que o Ministério Público atua “pela garantia do abastecimento de oxigênio, pela vacinação e demais medidas de segurança nacional”.

“A corrida para conter a epidemia é também pela retomada econômica do país. Ao tempo que defendemos o direito fundamental à vida, atuamos igualmente pela redução de nossas desigualdades sociais e pelo retorno de nossa produtividade”, acrescentou o PGR.

Pauta

No pronunciamento desta segunda-feira (1o), Fux fez uma rápida menção à pauta do Supremo neste primeiro semestre, elaborada por ele e que foi divulgada no fim do ano passado. À época, a agenda chamou atenção pela ausência de pautas polêmicas como a descriminalização das drogas e do aborto, e pela prevalência de ações ligadas aos direitos tributário e trabalhista.

No discurso, Fux disse ter privilegiado “casos cujo desfecho possam contribuir para a segurança jurídica dos contratos, para a retomada econômica do país”. Outros objetivos da pauta citados pelo ministro foram “o reforço da harmonia entre os entes federativos e os poderes da República, para a higidez das instituições públicas, para a proteção das minorias vilipendiadas e para a salvaguarda dos direitos de liberdade dos cidadãos e da imprensa”.

Aras também mencionou rapidamente a pauta do Supremo neste primeiro semestre, destacando entre os julgamentos a conclusão da discussão sobre trabalho intermitente e a análise sobre a distribuição de royalties do petróleo entre estados produtores e não produtores.

A primeira sessão de julgamentos do plenário do STF está marcada para a próxima quarta-feira (3), por videoconferência. 


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Governo detalha regras para incentivos à pesquisa em Ciência e Tecnolo

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O governo federal publicou o Decreto 10.602, que regulamenta a Lei de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), novo nome da antiga Lei de Informática (Nº 13.969 de 2019) e detalha as regras de uso de incentivos fiscais para atividades de pesquisa e desenvolvimento em Ciência e Tecnologia.

A Lei de TICs, aprovada em dezembro de 2019, fixou novas regras para o uso de determinados recursos no estudo e elaboração de novas soluções técnicas. Contudo, ao longo do ano houve questionamentos acerca de dúvidas por parte das empresas do setor na sua implantação.

Por isso, o objetivo do Decreto foi detalhar as diretrizes e regras previstas na lei de modo a evitar interpretações dúbias e deixar claro às empresas da área quem pode fazer uso dos benefícios e quais são os requisitos para essas atividades.

“O decreto foi feito sob demanda do setor produtivo em especial para reduzir as inseguranças jurídicas. A norma traz um maior detalhamento do que é coberto e como é coberto pela lei, inclusive na questão sobre os cálculos tributários. Trazemos também uma maior possibilidade de utilização da lei das TICs que vai trazer maior investimento em ciência e tecnologia”, explica o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Marcos Pontes.

Segundo o secretário de Empreendedorismo e Inovação do MCTI, Paulo Alvim, o decreto deixou mais claro quem pode e quem não tem direito aos mecanismos da lei. Ficam de fora empresas que não trabalham com hardware.

“O decreto qualificou quem era. Havia entendimento de que poderia ter incorporação de atores que depois seriam glosados. Isso cria risco de judicialização. A Lei de TICs não inclui o setor de software. Ali ficou claro. Estamos falando de produtos de informática, produtos de TIC”, comenta Alvim.

Outra previsão clareada pela norma, acrescenta o secretário, foram as possibilidades de uso dos recursos de renúncia fiscal. Uma das alternativas é para atividades de capacitação, uma forte demanda do setor produtivo.

Lei de TICs

A Lei de TICs foi o novo nome dado à Lei de Informática. A nova versão foi aprovada pelo Congresso em dezembro de 2019 e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 27 daquele mês.

O novo texto foi construído e votado por Câmara e Senado para se adequar a exigências da Organização Mundial do Comércio (OMC) diante de questionamentos feitos por alguns países, como pelo bloco da União Europeia e pelo Japão.

O texto prevê que as empresas de tecnologia da informação que investirem em pesquisa, desenvolvimento e inovação farão jus, até 2029, a incentivos fiscais sobre a receita líquida decorrente da venda dos bens e serviços, desde que os projetos tenham sido aprovados pelos ministérios da Economia e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.


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Euclides da Cunha uniu ciência à arte e denunciou diversas violências

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A escolha das palavras certas para descrever o ambiente e revelar tragédias. Descortinar violências, “Brasis” diferentes e até a própria consciência. Nas mesmas frases e páginas, misturas de ciências e arte literária. O espírito combativo, curioso e metódico de Euclides da Cunha é anunciado desde as primeiras páginas de Os Sertões (1902), obra monumental da literatura e do jornalismo brasileiro (disponível para leitura em domínio público), segundo explicam estudiosos do consagrado escritor, que nasceu em 20 de janeiro de 1866 (há 155 anos). 

Mesmo depois de tanto tempo – a primeira edição do livro saiu em 1902 -, os especialistas ouvidos pela Agência Brasil argumentam que a profundidade do trabalho do brasileiro, marcado pelo olhar científico e ao mesmo tempo artístico, explica a atualidade dos seus escritos e a necessidade de ser revisitado no século 21.   

Leia também: Euclides: Os Sertões é marco do jornalismo 

O autor, ex-oficial do Exército e engenheiro, escrevia para o jornal O Estado de S. Paulo, e foi para a Bahia reportar o que acontecia na Guerra de Canudos (que durou entre novembro de 1896 a outubro de 1897). Euclides esteve na região entre 10 de setembro e 3 de outubro (23 dias) e publicou suas impressões no jornal como Diário de Uma Expedição, a partir das 22 cartas e 55 telegramas escritos. Os trabalhos seriam a inspiração para o livro que seria publicado cinco anos depois, dividido em três partes:  A Terra, O Homem e A Luta

Euclides se surpreendeu bastante com o que viu e vivenciou. “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”, escreveu ele logo na nota preliminar. Segundo pesquisadores, diante do que flagrou, ao invés de compilar relatos e se ater a uma versão do governo central, Euclides mergulhou nas histórias dos sertanejos (sob a liderança polêmica do religioso Antônio Conselheiro), nos contextos amplos do cenários e do ambiente da caatinga e buscou as causas do acontecimento. “Ele sempre acreditou no consórcio entre a ciência e a arte”, afirma o professor de literatura brasileira e hispânica na Universidade da Califórnia, Leopoldo Bernucci, em entrevista por videoconferência. “Euclides tinha uma mente extremamente curiosa em um período marcado pelo culto à ciência”.

Obra de arte

Bernucci publicou em 2001 versão comentada de Os Sertões e, em 2021, chegará à sexta reimpressão, sempre com novas revisões para facilitar o entendimento de um livro que mexe com a cabeça do leitor. “A obra de Euclides é um conjunto extraordinário de conhecimentos. Trata-se de uma leitura difícil, com saberes técnicos e científicos. Mas ele se propôs a tratar do fenômeno de Canudos. A partir do momento que se lê essa grande obra, pode-se verificar que tudo ali está organizado e articulado”. 

reprodução da primeira página do livro Os Sertões, que também está em domínio público (publicado em 1902). reprodução da primeira página do livro Os Sertões, que também está em domínio público (publicado em 1902).

Reprodução da primeira página do livro Os Sertões, publicado em 1902 – Domínio Público

 

O livro é considerado uma obra de arte desde a sua publicação. Em 1903, o crítico Araripe Júnior escreveu que não era possível criticar o trabalho. “A emoção por ele produzida neutralizou a função da crítica. E, de fato, ponderando depois calmamente o valor da obra, pareceu-me chegar à conclusão de que Os Sertões são um livro admirável, que encontrará muito poucos, escritos no Brasil, que o emparelhem”. José Veríssimo destacou que o livro revelava “um homem de ciências”, “um homem de pensamento”,  e um “homem de sentimento”. A obra lhe valeu a indicação à Academia Brasileira de Letras, em 1903.

 

 

Além de dispôr a história da revolta e do papel de Antônio Conselheiro, Euclides utilizou um grupo de saberes que incluiu botânica, geologia, sociologia, antropologia, história das religiões e conhecimentos amplos sobre a vida e história militar. 

Aliás, a formação de Euclides em escolas militares tem influência decisiva, segundo pesquisadores, em seu desenvolvimento intelectual. “As escolas e a carreira militar são decisivas na vida dele. O Exército estava na vanguarda do processo histórico daquele período. Claro que os professores e as referências que ele teve influenciam na obra, que é alta literatura”, afirma a professora Walnice Galvão. Ela pesquisa vida e obra de Euclides da Cunha há mais de 50 anos. A intelectual, docente emérita da Universidade de São Paulo (USP), publicou 12 livros sobre o autor. “Além da formação, outro fato transformador na vida dele é a cobertura em Canudos”, salientou.

“Humildade”

Para os pesquisadores da obra de Euclides da Cunha, o escritor foi para Canudos certo que encontraria ali uma revolta estimulada pelos monarquistas contra a recém-nascida república, proclamada em 1889. Mas o autor descobre que essa não é a história verdadeira. 

Não havia relação com disputa política e Euclides mudou de ideia e de foco durante a expedição. “Está estampada em todas as páginas o dilaceramento de consciência que ele viveu ao presenciar a violência do Estado contra os sertanejos”, afirma a professora Walnice Galvão. 

É nesse contexto que ele considera um crime o que ocorreu ali, com o massacre dos moradores e das cinco mil casas do lugarejo. “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, escreveu na abertura do capítulo três. Essa mudança de ideia, segundo Leopoldo Bernucci, revela-se como um ato de humildade por parte de Euclides, ao deixar o acampamento da expedição promovida pelo governo para se embrenhar na caatinga. A historiografia registra que pelo menos 20 mil pessoas morreram no episódio.

Walnice Galvão destaca que Euclides teve uma virada de consciência rápida. “Ele ficou um pouco menos de um mês em Canudos, mas foi o suficiente para ter uma nova percepção do que ocorria. Na verdade, ele levou um choque diante do que descobriu. É um trauma da vida dele”.

Preocupação ambiental

O professor de literatura Leopoldo Bernucci prepara, junto com o pesquisador Felipe Rissato, uma obra sobre 1,4 mil correspondências enviadas e recebidas por Euclides da Cunha. A estimativa é de pelo menos mais um ano de coleta dessas cartas oficiais e também de cunho pessoal do autor. Chamam a atenção nos materiais a preocupação de Euclides com o meio ambiente. 

Inclusive, após publicar Os Sertões, o escritor foi convidado para chefiar a Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na Amazônia. Nas cartas enviadas para o Barão do Rio Branco, principalmente no ano de 1905, detectou desmatamento nos seringais e também exploração dos trabalhadores. 

“Ele sempre revelou uma preocupação ambiental com o país e uma consciência ecológica bastante forte. Podemos dizer que ele tem uma atitude pioneira de denúncia da devastação das matas”, afirma Bernucci. Outro aspecto dessa atenção está na parte em que o autor discute as secas no Nordeste e suas origens (leia especial sobre história das secas produzido pela Agência Brasil). Ele havia tratado do tema para o jornal e incorporou-o em Os Sertões, inclusive sobre a relação entre desmatamentos com períodos de seca e efeitos de chuvas.

 “Depois, na Amazônia ele viu as condições precárias e de escravização a que nordestinos – em particular cearenses fugidos da seca – estavam trabalhando para a indústria da borracha”, diz o pesquisador. A expedição à Amazônia, segundo estimava Euclides, renderia o livro Paraíso Perdido. Mas, o autor morreu antes de conseguir terminar o trabalho e esmiuçar em livro a denúncia. Na volta da expedição a serviço, quando tinha 43 anos de idade, trocou tiros com o amante da esposa, o militar Dilermando de Assis, acabou alvejado e não resistindo aos ferimentos. O episódio ficou conhecido como “tragédia da Piedade”, bairro do Rio de Janeiro onde ocorreu o fato.

A morte precoce impediu o novo trabalho, mas os pesquisadores ainda descobrem escritos inéditos e tentam trazer à luz olhares sobre o autor que entrou para a história. Para o professor Arnaldo Godoy, que estuda as áreas de direito e literatura, a obra de Euclides da Cunha é muito importante porque congrega diferentes saberes. Ele a utiliza nas aulas para ajudar os estudantes a entenderem as dinâmicas sociais do Brasil. “Trata-se de uma descrição eletrizante e épica, e oferece insumos jurídicos para aprendizagem. A literatura pode nos ajudar a suscitar uma série de debates sobre temas que ele traz tanto em Os Sertões como nas correspondências”. 

 

 

Walnice Galvão também estudou as correspondências de Euclides e de autores brasileiros que se inspiraram na obra do autor. “Seguramente, Guimarães Rosa leu muito Euclides”. A mesma estudiosa debruçou-se oito anos sobre Os Sertões para a publicação de uma edição crítica. “É uma grande obra de arte literária que faz a gente quebrar a cabeça. É um monumento para a gente entender o Brasil e a sua história, e que deve ser lido desde a primeira parte (A Terra), que é pura poesia”. 

Uma prosa poética sem ficção, e de palavras duras da realidade. “O autor aponta o que é ou não real. Mas quem decide o que é literatura é o leitor”, explica Bernucci. Euclides era rígido com dados, e defende, na introdução de sua obra, um conceito do francês Hippolyte Taine: de que o narrador deve evitar meias verdades, que são “meias mentiras”, e que não adianta “copiar os dados” se for “desfigurada a alma”. Alma e precisão, não necessariamente nesta ordem, atravessaram os sertões de Euclides.


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Prossegue até domingo a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

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Termina neste domingo (13) a edição presencial da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2020 (SNCT), no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, em Brasília, que tem como tema Inteligência Artificial, a nova fronteira da ciência brasileira. 

Organizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), a SNCT conta com estandes das secretarias do ministério, unidades vinculadas e parceiros. Estão sendo realizadas palestras sobre a Inteligência Artificial (IA) em diferentes setores do país.

“O objetivo da SNCT é mobilizar crianças, jovens e famílias em torno da ciência e tecnologia. Em outubro, grande parte da programação da semana foi realizada de maneira virtual, por meio do canal do ministério no YouTube, dentro da programação do Mês Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovações (MNCTI), criado este ano”, informou o ministério.

No espaço do MCTI no pavilhão, os visitantes poderão acompanhar, por exemplo, o trabalho de pesquisadores e instituições que compõem a RedeVírus MCTI e atuam no combate ao novo coronavírus (covid-19). A rede reúne especialistas, representantes de governo, agências de fomento do ministério, centros de pesquisa e universidades.

Entre os trabalhos em exposição, estão os voltados para o sequenciamento do vírus, produção de testes diagnósticos com tecnologia nacional, reposicionamento de fármacos e produção de soros e vacinas contra a doença.

Com o intuito de promover maior segurança em razão da pandemia do novo coronavírus, os visitantes passarão por medição de temperatura na entrada, e o uso de máscara é obrigatório. Também há álcool em gel nas áreas de circulação, higienização de equipamentos e afastamento de cadeiras no setor destinado a palestras.

O evento está aberto todos os dias das 10h às 20h e a entrada é gratuita.


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Começa versão presencial da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

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Começa hoje (7) em Brasília a edição presencial Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. O evento ocorre anualmente e é organizado pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), em parceria com outras instituições públicas, tanto da esfera federal quanto de governos estaduais e prefeituras.

Até o ano passado a semana ocorria no mês de outubro, na segunda quinzena. Neste ano, contudo, o cronograma foi alterado em razão da pandemia do novo coronavírus. A semana vai até o dia 13, próximo domingo.

Em outubro foram realizadas atividades, mas de modo virtual, com o que foi batizado de “Mês da Ciência e Tecnologia”. As palestras e os debates podem ser acessados no canal do YouTube do MCTI.

O tema desta edição será Inteligência artificial, a nova fronteira da ciência brasileira. Este conjunto de tecnologias vem trazendo mudanças em diversos campos, da economia à política, passando por saúde e educação. A Agência Brasil publicou especial sobre as transformações promovidas por essas inovações.

Como em edições anteriores, foi montada uma estrutura no Parque da Cidade, em Brasília, onde foram instalados estandes de diferentes órgãos públicos com atuação na produção de conhecimento científico e tecnológico.

A estrutura ficará aberta ao público de 10h às 20h. Em razão da pandemia, foram adotados protocolos, como medição de temperatura, disponibilização de álcool em gel para higienização e obrigatoriedade de uso de máscaras faciais.


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Técnico mais jovem do Brasileiro destaca ciência e duelos com Ceni

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O que astros da seleção brasileira como Neymar, Alisson, Philippe Coutinho e Casemiro têm em comum com Luan Carlos Neto? Todos nasceram em 1992, vivem do futebol e iniciaram as respectivas carreiras precocemente. A diferença é que se a rotina dos quatro primeiros é dentro de campo, a de Luan é fora dele. Aos 28 anos, ele é o técnico mais jovem entre os 128 clubes das quatro principais divisões nacionais. Ele treina o Goianésia, clube do interior goiano que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro, transmitida pela TV Brasil.

Apesar da juventude, Luan já está na quinta temporada como treinador. Antes do Azulão do Vale, como é conhecido o time atual, ele trabalhou nos também goianos Novo Horizonte (clube de sua cidade natal, Ipameri, a cerca de 200 quilômetros da capital Goiânia) e Grêmio Anápolis e nos cearenses Atlético-CE, Floresta e Caucaia.

“A carreira de treinador é muito ímpar, diferente, instável. Você está sempre se equilibrando em resultados. Você precisa de um bom relacionamento com os jogadores. Uma forma é ter conhecimento. É como tento me embasar, pelo conhecimento científico. Os atletas percebem que a gente tem algo a oferecer. A vivência tem me mostrado isso na prática. O respeito é uma via de mão dupla. O que explico [aos jogadores] é que estamos no mesmo patamar, que temos de conversar olho no olho, entendendo que o diálogo é a ferramenta”, descreve o técnico.

Luan já vivenciou os dois lados do futebol. Em 2018, foi semifinalista do Campeonato Cearense pelo Uniclinic (atual Atlético-CE) e eleito o segundo melhor técnico da competição, atrás de Marcelo Chamusca (do campeão Ceará). No segundo semestre da mesma temporada, levou o Novo Horizonte à primeira divisão do Campeonato Goiano. Já em 2020, o técnico não conseguiu evitar o rebaixamento do Floresta no Cearense.

“Nessa caminhada, tive altos e baixos. É natural. Mas vejo que posso melhorar com relação a tudo. A gente pode evoluir. Eu sempre me cobro muito no aspecto tático. Estudar mais o jogo, entender mais o jogo, para tirar o máximo possível dos atletas. Essa cobrança é diária e precisa ser constante”, afirma.

Luan treina o clube do interior goiano que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro Luan treina o clube do interior goiano que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro

Luan durante treino com o Goianésia, que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro – Assessoria de Comunicação / Goianésia Esporte Clube

Da teoria a prática

O sonho de viver de futebol iniciou como o de muitos jovens. “Joguei por dois anos na categoria de base, no sub-14 e sub-16. Fui zagueiro”, conta Luan. Aprovado no curso de Educação Física da Universidade Federal de Goiás (UFG) aos 16 anos, teve que decidir se trocaria o campo pelos livros. “Eu não tinha tanta qualidade [técnica] assim”, brinca.

“Acabei entrando [no futebol] pelas portas da preparação física, pelo banco da universidade. Por isso, defendo muito a presença do conhecimento científico no futebol. Foi ele que me proporcionou estar onde estou e é o que quero seguir, em cada passo que der na carreira”, completa o profissional, que também é pós-graduado em Fisiologia do Exercício, Nutrição e Psicologia do Esporte.

Na mini-biblioteca que mantém em casa, a literatura de futebol é dominante. Especialmente a literatura portuguesa, com a qual mais se identifica. “Tenho uma admiração muito grande pela formação de treinadores em Portugal. Lá se escreve muito sobre futebol e se respeita o conhecimento científico. Não há tanto preconceito. Em sua maioria, os técnicos de lá são, de fato, professores”, diz Luan.

Especialistas portugueses como Júlio Garganta, que é doutor em ciência do esporte, ou o filósofo do futebol Manuel Sérgio se tornaram referências. Mas não só. “Leio muito sobre [os técnicos] Jorge Jesus e José Mourinho. Quando o Jesus veio para o Brasil, fiquei muito feliz, empolgado. Acompanhei vários jogos do Flamengo in loco, fiz questão”, recorda o goiano.

Com a experiência na beira do campo, surgiu a admiração por outros treinadores com os quais esteve frente a frente. Três deles em especial: Marcelo Chamusca, Lisca e Rogério Ceni. “Aprendi muito nesses confrontos, principalmente sobre estratégia. Eles me deram aula disso. Tive que me virar para sair do que estavam criando nos jogos. Saí com dor de cabeça deles [risos]. Mas foram as partidas que mais me ensinaram, pelo nível de dificuldade, que te obriga a dar uma resposta imediata”, destaca Luan.

Um desses jogos é especial para o técnico goiano: a vitória por 2 a 1 sobre o Fortaleza, na Arena Castelão, pelo Campeonato Cearense do ano passado, quando dirigia o Atlético-CE. Foi o primeiro triunfo contra Rogério Ceni, por quem havia sido derrotado nas duas vezes anteriores que se enfrentaram (ambas em 2018). “Foi um grande jogo, um espetáculo. Eles fizeram 1 a 0 com 12 segundos, mas mantivemos a nossa proposta de jogo. Empatamos e viramos”, lembra o profissional, que rasga elogios a Ceni: “Ele é muito estrategista. Muda a equipe oito, nove vezes na partida sem mexer em uma peça. É um cara muito inteligente, que pensa muito o jogo e joga junto com o time, que é algo que eu gosto também”.

Série D

Luan disputa a Série D do Brasileiro pela segunda vez. No ano passado, comandando o Atlético-CE, atingiu a segunda melhor campanha da primeira fase – ao lado de quatro times que também somaram 15 pontos em 18 possíveis. No mata-mata, a equipe caiu para o Bragantino-PA. Desta vez, a classificação na fase de grupos pelo Goianésia está bem encaminhada. Com um elenco cuja média etária é de quase 28 anos – justamente a idade do treinador -, o Azulão está em terceiro no Grupo 5, com 19 pontos, a um de se garantir na próxima fase.

Confira a classificação da Série D do Campeonato Brasileiro.


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Orçamento republicano para a ciência e as futuras gerações

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Tramita na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o Projeto de Lei 627/20, que trata do Orçamento Estadual e nele consta nova ameaça ao fundo destinado ao financiamento da ciência, representado pelo corte dos saldos acumulados pela Fapesp anos a fio, visando ter um colchão de conforto para…